Não é impressão: os jovens de hoje
estão mais vulneráveis ao suicídio.

Um grande estudo norte-americano confirma o que a gente já vem percebendo há algum tempo: os jovens de hoje têm uma tendência maior à depressão e ao suicídio do que os jovens de dez anos atrás. O uso excessivo de tablets e smartphones é apontado como o grande vilão da história, e tudo indica que essas tecnologias não afetaram os mais velhos da mesma maneira.

O novo trabalho foi publicado nesta quinta-feira (14) pela Associação Americana de Psicologia, e foi coordenado por ninguém menos que Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego, uma das maiores estudiosas das chamadas gerações do Milênio e do pós-Milênio. Ela é autora do livro “iGen – Por que as crianças superconectadas estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes – e completamente despreparadas para a vida adulta”.

Twenge e sua equipe utilizaram dados da Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde, dos EUA. As amostras analisadas continham 200 mil adolescentes de 12 a 17 anos, abordados entre 2005 e 2017, além de 400 mil adultos com 18 anos ou mais, avaliados entre 2008 e 2017. Ou seja, é muita gente e que foi acompanhada por bastante tempo, o que dá força para o estudo.

Os pesquisadores descobriram que a taxa de adolescentes com sintomas de depressão nos 12 meses anteriores à pesquisa subiu de 8,7% em 2005 para 13,2% em 2017. Em adultos jovens de 18 a 25 anos, aumentou de 8,1% em 2009 para 13,2% em 2017 .

A taxa de jovens adultos com pensamentos suicidas, planos, tentativas e mortes por suicídio também aumentou de forma preocupante – de 7% em 2009 para 10,3% em 2017. Os resultados foram publicados no Journal of Abnormal Psychology.

O que chama atenção, segundo a equipe, é que essa tendência maior a problemas de saúde mental é fraca ou inexistente quando se leva em consideração adultos com 26 anos de idade ou mais. Também não houve um aumento significativo no percentual de idosos com depressão ou sofrimento psíquico nos períodos correspondentes.

Tudo indica que as mudanças culturais ocorridas nos últimos dez anos (e muito ligadas às novas tecnologias) tiveram um impacto mais forte para os adolescentes do que para os mais velhos.

A pesquisa também revela que os jovens têm dormido menos hoje em dia em relação às gerações anteriores, outro fato que pode ser atribuído ao uso das tecnologias móveis. Por que esse tipo de prejuízo não é tão visível para os mais velhos? Provavelmente porque essa população já tinha hábitos mais estáveis antes de serem expostos aos smartphones.

É importante lembrar que outros estudos, com populações de outros países, também trazem dados parecidos sobre a saúde mental dos jovens. Um deles, feito com cerca de 11 mil adolescentes do Reino Unido e publicado no início do ano, ressalta que usuários pesados de mídias sociais são duas a três vezes mais propensos à depressão do que aqueles que não usam tanto essas plataformas.

Como eu sempre digo, ainda são necessários mais estudos para elucidar como esse fenômeno recente interfere no humor e no cérebro dos jovens. É a diminuição da frequência de interações face a face que causa tantos prejuízos? Ou é a falta de sono e de tempo gasto ao ar livre? Ou, ainda, é a comparação excessiva estimulada pelas redes sociais? Ou é tudo isso junto? Questões econômicas ou genéticas podem ter ligação também?

Os pesquisadores admitem que essa investigação ainda precisa se aprofundar. Mas eles tentam concluir o artigo de uma forma otimista, dizendo que, se o problema for mesmo a tecnologia, vai ser mais fácil virar o jogo. Um jovem não pode modificar a economia de um país, nem seu DNA, mas pode mudar seus hábitos, como sair mais, dar preferência a interações reais e desligar os eletrônicos mais cedo.

ESCRITO POR
Dr. Jairo Bouer

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